No topo de Lisboa e no fundo do copo




A vida é uma estrada tortuosa e de estadia turbulenta. Antes de vir a Portugal, pensei como seria a viagem de avião, se teria muita turbulência, se seria tranqüila, mas no final, não importa. A vida não é fácil, e para se chegar onde você quer, são necessários algumas turbulências e sacrifícios. Só quem ganha asas sabe o quanto é difícil estar no chão.

Chegamos ao 100 Montaditos em uma noite de quinta, por volta de 18h, o Montaditos é um restaurante de comida espanhola, que serve uns mini-lanches suculentos e baratos, alguns são servidos pelo preço de até 1 euro. Uma de suas filiais, que se situa no Cais do Sodré, fica na Praça Dom Luiz, em Lisboa. Suzana pediu uma taça de vinho e batata frita com quatro molhos, eu fiz o pedido tradicional de uma caneca grande de cerveja enquanto esperávamos Polly.
Polly largou às 19h e nos encontrou no restaurante agora movimentado, “Me leva para algo legal, depois daqui”, pedi para ela. Conheci Polly nos bares Olindense, estava em Lisboa há 5 meses, começou estudando na Irlanda, desde então nunca mais parou de viajar. “Que a viagem nunca termine”, é seu lema.

Bar Palheta - Lisboa
Ela foi esperta e me levou para um bar que se assemelha bastante com os bares Olindenses, se chama Palheta. O Palheta, ainda no Cais do Sodré, se situa na Travessa Ribeira Nova, 30. O foco do bar é conversa, música e bebida, ótimo para uma noite de quinta. O ambiente era estreito com musicas que saíam de um vinil que ficava em cima de um piano, bastante rústico, para sentar, além de grandes cadeiras, havia sofás rasgados e confortáveis deixando o clima de espaço familiar. Do lado de fora, as pessoas se aglomeravam e conversavam de copo na mão, “Polly me trouxe para o lugar certo”, pensei, era o mais próximo de Olinda que eu teria em Lisboa.
Amanda nos encontrou encostados na parede do bar às 21h. Amanda, amiga de Suzana, iria passar alguns dias em Lisboa e queria aproveitar tudo que podia. Quando nos encontrou a primeira pergunta que fez foi que horas iríamos para o Bairro Alto. “Só começa a ficar bom umas 22h”, disse Suzana.

Na hora combinada, subimos as ladeiras de Lisboa e chegamos na Rua da Atalaia, que fica situado o Bairro Alto, Suzana que já havia visitado, nos levou ao Bar Copo da Crise, chamado agora de Bar 104. O preço do bar é bastante acessível, comprei 500ml de cerveja por 2 euros, logo o batizei de baldão de cerveja. “Nunca vi tanta cerveja por tão pouco dinheiro”, declarei feliz.

Às 23h havia pouco movimento, para mim não importava já que estava de balde cheio. Já Amanda, perguntava se o ambiente era sempre assim, “fraco”. “Vai melhorar”, Suzana respondia pacientemente. Logo a previsão de Suzana tomou forma, o local começou a encher de turistas e o Bairro Alto começou a ficar movimentado. Nesse curto espaço de tempo, fui ao banheiro fazer amizades. Acabei conhecendo um rapaz de Fortaleza. “Estais gostando daqui?”, prontamente me perguntou. “Lógico”, falei mostrando meu grande copo de cerveja.
“Difícil é paquerar aqui”, respondeu. “as brasileiras que estão aqui, normalmente, só querem os europeus, sabe como é”. O cearense me convidou para conhecer seu amigo que estava em um bar próximo, assim que cheguei o pobre amigo dele estava com uma cara amargurada. “Prazer, meu nome é Hugo”, falou tocando minhas mãos. “Já conseguiu algo?”, perguntou.
“Como assim?”, perguntei.
“Alguma mulher, conseguiu ficar com alguém?”
“Tenho namorada,” falei desinteressado.

“Fui falar com uma garota, e ela nem me olhou quando disse que era carioca, tenho que falar que sou carioca para elas me notarem um pouco, ser brasileiro é difícil, se for do nordeste, pior ainda.” Falou.
A noite dessas pessoas só vale à pena se tiver em uma relação vazia, sem expressão e sem naturalidade. Talvez a solução seja o fundo do copo, ou o fundo de suas almas. Quando voltei ao Bar 104, dei de cara com Amanda querendo ir para casa. “Esse lugar tem muita gente, vamos beber em casa?”, sugeriu.

Eu sabia que era mentira, que quando chegássemos em casa, cada um entraria no seu mundinho do celular até adormecer, talvez a solução seja o fundo do copo, ou talvez realmente devêssemos dormir.
A estrada pode ser vazia e escura, mas ela só muda e vai colorindo se a gente for caminhando sempre em frente, seguir sem se importar se há muita gente, ou pouca gente, se ficou com alguém ou não, ela muda de dentro pra fora. A noite é frágil e a solução está dentro da gente, e, lógico, no fundo do copo.

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