A democracia de palanque, uma análise revolucionária sobre Guilherme Boulos
A palavra democracia tem
origem do grego DEMOKRATIA. Demos significa povo e Kratos significa poder. No
caso, o sistema democrático DEVERIA ser o poder exercido pelo povo. Pois é,
deveria.
A “democracia” tem inicio no
Brasil, no século XX, após 20 anos de repressão da ditadura militar. A
constituição de 1988 veio para contemplar nós, brasileiros, ao menos na teoria,
a liberdade de voto e expressão. Poderíamos escolher um representante em uma
república presidencialista.
Hoje, 2018, estamos vivendo
um período histórico no país, a corrida eleitoral para presidente. A diferença
dessas eleições para as últimas é a, além da polarização popular, a crise
econômica e social que o país está vivendo.
Hoje (22/08) acontecerá um comício de um dos presidenciáveis, Guilherme
Boulos, candidato do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), no Pátio de São
Pedro, no centro do Recife.
Perguntei a uma amiga, até
então eleitora de Boulos, se iria para o comício. “Com certeza”, respondeu
animada. Decidi acompanhá-la para saber como funciona o processo e, se possível
e tiver sorte, fazer algumas perguntas ao candidato. “Tenho algumas perguntas
em minha mente,”, disse a Ma, minha amiga. “Todos nós temos,”, respondeu.
Ela mora na Rua da Aurora,
então tive que dar alguns passos da parada de ônibus até a casa dela. Antes de
encontrá-la, dei de cara com o Monumento Tortura Nunca Mais feito pelo
arquiteto piauiense Demetrio Albuquerque, o monumento foi construído em
homenagem aos mortos e desaparecidos políticos brasileiros durante a ditadura
militar. O monumento choca, mas a realidade, mais ainda. Após alguns minutos de
reflexão, encontrei Ma com cara de sono e uma camiseta preta fazendo alusão ao
Anti Fascismo.
| Monumento Tortura Nunca Mais |
Sem muitas delongas,
caminhamos até o Pátio de São Pedro, para nós, não havia nenhum outro assunto
fora a política nacional. A cada passo dado, cada improviso do papo fazíamos
referencia às eleições, a amarga ironia era saber que nossos tênis, que pisavam
no concreto da cidade, eram mais autênticos que a máscara democrática da
legitimidade das eleições.
O comício estava marcado às
17h, quando chegamos, meio hora antes, havia poucas pessoas, não parecia que
haveria um comício em um momento tão importante do país. “Ou as pessoas estão
descrentes, ou Boulos não é tão popular assim”, comentei.
Ma, generosa, comprou
algumas latinhas de cervejas, enquanto víamos bandeirolas partidárias se
aproximando, o clima estava esquentando e a cerveja também.
Candidatos e candidatas a
senadores, deputados e governadora entraram na rua com sua militância fazendo
aquele barulho, gritavam uma nova ordem de esperança ao povo.
O surpreendente foi uma
chapa de representação feminina do partido, o que a meu ver, é bastante
positivo, já que mulheres são metade da população brasileira, mas só possuem
10% dos cargos eletivos do país. É
importante ocupar espaço e ter cada vez mais voz.
Os discursos do palanque
começaram e o nome mais falado era “Democracia”. Candidatos e candidatas e até
simpatizantes da causa, surpreendentemente jornalistas tomando posição
política, subiam e falavam em nome do povo que não estavam lá, clamavam por uma
liberdade que não havia e uma democracia que não nos pertencia. Os três poderes
(judiciário, executivo e legislativo) se posicionam a favor da democracia
burguesa, serve apenas a elas e reforçam a exploração do capital. O PSOL , em
seu programa, percebe isso e coloca em pauta a superação da ordem capitalista
com políticas de reformas, valorização da minoria e principalmente combate aos
privilégios. Porém, a grande dúvida que paira no ar, é como romper com a
burguesia dentro de seu próprio mecanismo de opressão que são as eleições.
Essas perguntas não eram
respondidas, a derrubada da democracia dos ricos ou de reforma política, era
colocada para segundo plano.
Percebi um discurso mais
ácido de algumas pessoas do grupo, eles clamavam pela derrubada do sistema
capitalista, reforma política completa e poder ao povo. Perguntei a Ma quem
eram aquelas pessoas, e por que seus discursos saiam da linha. “São do PCB,
Partido Comunista Brasileiro, faz coligação com o PSOL, tem um discurso mais
pesado contra o sistema e o capitalismo, Boulos antes de sair candidato também
tinha esse discurso mais inflamado, principalmente quando era mais atuante no
MTST (Movimento dos trabalhadores Sem Teto) e garantiu habitação para 20 mil
famílias, talvez fosse necessário aliviar o discurso já que é candidato”,
respondeu.
O que é incompreensível para
mim, é como esses partidos querem derrubar o sistema, assumindo sua maquinaria.
Como disse Karl Marx em 12 de abril de 1871, durante a comuna de Paris: "não basta a classe operária
apoderar-se da máquina do Estado para adaptá-la aos seus próprios fins.”
A ideia do sociólogo e revolucionário, era de destruir a máquina do estado, não
se limitando a tomar conta dela.
A mudança deverá acontecer
de fora para dentro, não de dentro para fora. O que me leva a conclusão que eram
partidos reformistas com máscaras revolucionárias. Pensam em mudar o sistema
burguês, que é naturalmente contra o povo, em favor do povo.
Alguns (que se dizem) marxistas,
diferente de alguns anarquistas, reconhecem a luta pelas reformas dentro do
sistema capitalista. Esses Marxistas acreditam nas mudanças graduais dentro do
sistema econômico e estrutural da sociedade. Uma luta por melhorias da situação
dos trabalhadores.
Porém meu pensamento segue o
raciocínio do revolucionário comunista Lênin quando o mesmo afirma em uma de
suas cartas em 12 de setembro de 1913: O reformismo é um logro burguês dos operários, que permanecerão sempre
escravos assalariados, apesar de determinadas melhorias, enquanto existir a
dominação do capital.
Sendo assim, minhas
perguntas ao candidato eram baseadas em duvidas sobre as mudanças da dominação
do capital, das mudanças que ele faria referente à maquina de concentração de
poder.
Ma fez contatos com alguns
representantes do partido para conseguir minha entrevista. Enquanto isso, eu observava
a vice de Boulos, a líder indígena Sonia Guajajara. Sonia representava a causa
indígena, anticapitalista e ecossocialista. Sua militância começou na
coordenação das organizações e articulações do povo indígena no Maranhão
(COAPIMA) e hoje com vários diplomas e currículo de militância chega ao partido
com experiência. No palco, representantes da tribo Xucurú estavam ao seu lado,
de cocares, penas e pinturas pelo corpo, fizeram uma apresentação caricata, com
um toque cênico para sensibilizar os seus futuros eleitores. Boulos, quando
subiu, foi mais áspero, discursou sobre construir um país combatendo os
privilégios da burguesia, defender os direitos do povo e da democracia.
. O candidato tinha uma
postura firme com um discurso popular, que lembra o ex presidente Lula, mas ao
contrário de Lula, Boulos não arrastava multidão, talvez pela falta de carisma
do mesmo. Enquanto falava, havia um enorme “Como?” em minha mente, suas
propostas para educação, aumentar impostos de rendas para os mais ricos e
programas sociais eram, em geral, boas, mas não conseguia entender tudo isso de
forma prática.
Um representante de Boulos
me informou que não poderia me conceder a entrevista, pois sua agenda estava
lotada e precisava pegar o avião rapidamente, mas ficaria satisfeito em me
receber em outro momento. Fiquei decepcionado, mas não surpreso.
Ao final, caminhamos de volta
à Aurora. Perguntei a Ma o que ela tinha achado de tudo.
“Fiquei com um sentimento de
vazio”, respondeu. “Vazio como o pátio estava hoje?”, brinquei. “Sim, mas de
qualquer forma nunca tive certeza de nada, tenho um monte de perguntas, mas
isso não é o problema, o problema são nossas certezas”, respondeu.
Concordei, voltamos com mais perguntas que
respostas nos bolsos. O sistema representativo, não é democrático. A democracia
representativa representa apenas uma classe, a da minoria oligárquica, Um
regime que apóia o sistema capitalista de exploração. Enquanto tivermos o
pensamento de conservar a estrutura política, iremos conservar a estrutura de
dominação social, afastando o trabalhador de vez do que realmente importa, que
é a luta de classe.
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