Quando o lugar NENHUM, te leva para ALGUM lugar
Nas
primeiras semanas em Lisboa, mal parávamos em casa, comíamos fora, comprávamos
roupas do frio para suportar o inverno europeu, víamos as pessoas passarem nas
ruas tomando vinho na praça, era novembro.
As
comidas portuguesas são deliciosas, dizem que é a que mais se aproximam da
brasileira na Europa, todos os pratos são apetitosos, até as de visuais
desagradáveis. Fomos servidos de sardinhas apetitosas, batatas recheadas,
cachorro quentes, sanduíches ou carnes macias. Era complicado escolher o prato
favorito. Logo eu, que não consegue escolher nem a cor favorita.
Subíamos,
descíamos, esquerda e direita, tudo com a ajuda do mapa da nova geração, o
“Google Maps”. As ruas de Lisboa pareciam todas iguais, parece nossas vidas que
correm em círculos. Suzana perguntava: “Sabe onde vai dar se for por aqui?”
Eu
nunca sei, apenas vou.
Em
Lisboa é comum ver estrangeiros, mas é difícil ver casais inter-raciais, comum
mesmo é ver briga de casal, seja qual for a língua, a briga é universal.
Suzana
e sua amiga Amanda decidiram ir ao famoso Castelo de São Jorge. “Pode ser,
tanto faz”, respondi ao convite. Eu apenas seguia. O castelo localiza-se na
freguesia de Santa Maria, na cidade de Lisboa. Seu nome é relacionado ao padroeiro
dos cavaleiros das cruzadas.
Logo
na entrada dá para notar, lá de cima, toda a cidade de Lisboa sendo cortada
pelo Rio Tejo, uma visão espetacular. De longe, as casas parecem modeladas com
casinhas de lego, a estrutura da janela e dos telhados traz a sensação de estar
diante de um quadro. Para aproveitar a visão, algumas pessoas apreciavam um bom
vinho. Por inveja, decidi comprar uma taça, achei que o momento era propício, mas
logo esbarrei no alto preço. “O ambiente o deixa caro”, explicou Suzana. “Quero
beber o vinho e não o ambiente”, respondi.
Entramos
pelos portões que dão acesso às grandes muralhas do castelo. Subíamos a torre
em escadas estreitas feitas de pedras, pisei nos degraus focando o chão, pois
qualquer deslize poderia acontecer um acidente fatal.
Assim
como boa parte dos monumentos históricos da Europa, o Castelo de São Jorge traz
o testemunho de várias ocupações. Posteriormente, uma fortificação Moura,
invasores da Península Ibérica oriundos do norte da África na Idade Média.
No
topo da colina é onde se encontra fortificação que foi construída no século XI,
no período Islâmico, a paisagem é simplesmente esplêndida, dava para avistar
boa parte de Lisboa, o Rio Tejo e o jardim da floresta portuguesa. Fiquei boa
parte do tempo imaginando os Mouros se defendendo nessa guarnição militar,
posicionando suas armas contra os inimigos que viam pelo rio.
“Eram
muralhas, pedras enormes, nada mais,”, pensava enquanto a vista me deixava
tonto, tanto pela altura quanto a energia negativa proveniente de massacres em
séculos passados.
Desci
as escadas, sem tanto cuidado dessa vez e comprei uma cerveja para relaxar no
gramado.
Fiquei refletindo sobre como a vida me levou para tão alto, eu deixo
que o vento me carregue pelas correntes do Rio Tejo. Assim como os Mouros, eu
também resistia, colhendo os privilégios de alguém que não sabe aonde chegar,
mas que sempre quer seguir, e quem segue chega a algum lugar.




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