As estações do ano aqui dentro e aqui fora, chegando em Lisboa
A noite anterior que cheguei a
Lisboa havia chovido muito. Eu podia perceber pelas poças no chão e o cheiro de
folha molhada nas ruas. Era uma segunda de sol, apesar de tudo. “Eu sempre
trago o sol”, disse a Suzana que me esperou horas no aeroporto. Era a primeira
vez que colocava os pés na Europa, como algumas pessoas dizem: “o Velho Mundo”,
dizem isso quando se referem a um dos lugares onde surgiram às primeiras
civilizações. Um amigo gosta de provocar chamando o país de quintal da Europa,
talvez pelo fato de ser localizado no sudoeste do continente europeu e por ser
uma dos países menos expressivos economicamente em todo o
continente.
O
que mais me chamou a atenção dos primeiros dias é que, diferente de grandes
capitais, Lisboa não tem uma grande movimentação nas horas de pico. Em Recife
ou São Paulo, as pessoas sempre estão com pressa, os portugueses andam mais
tranquilos, sem tanta vontade. Já em relação à língua é o contrário, o
português de Portugal é corrido, normalmente se engole uma ou duas palavras,
atropelam letras, em alguns momentos, até parece outro idioma. No Brasil,
quando se têm pressa as pessoas é que são atropeladas.


Suzana
costuma comentar que os portugueses são bregas na hora de se vestir, mas essa
não foi a impressão que tive quando vi alguns coroas de casaco estiloso, óculos
bacana e cabelo grisalho penteado para trás. Até pensei em aderir o estilo, mas
pensando bem, não me sentiria confortável em alguns tipos de roupa, poderia até
cair bem nelas, mas sabe como é, não combina com meu estado de espírito.
Decidimos
passar alguns dias turistando antes
de fazer nossa rotina e cair no pesado, que seja, adoro férias. Durante a
semana, pegamos um bondinho no Martim Moniz e subimos as ladeiras de Lisboa com
a cara na janela para aproveitar a vista. Coloquei a música no fone em aleatório
e me deixei sentir a paisagem portuguesa, vendo aquelas casinhas colorida de
varandas enormes que se esfregavam em ruas estreitas. “Não é lindo?” Suzana,
fascinada, me perguntava. “Parece Olinda,” eu respondia com a mesma mania de
comparar as coisas para ter algum tipo de referência. Se ouvisse uma música
nova, normalmente dizia: “Parece tal banda”, se visse um filme novo, tacava:
“Lembra aquele outro filme”, sempre buscava algum tipo de referência na memória.
Quando
chegamos ao destino final, sem saber que haveria um destino final, decidi me
presentear com uma cerveja, sou desses, gosto de me presentear e de me
surpreender. Então, aproveitei a vista do Miradouro de garrafa na mão e
respiração ofegante, porém tranquilo e de coração aberto.
É
fim de outono em Lisboa, o clima é de céu azul brilhante se encontrando com os
últimos verdes das árvores. Havia sol, mas havia frio, em Olinda quando há
chuva, há calor, e quando não há, o calor continua, esse é o grande paradoxo de
duas cidades ligadas pela história, mas não pelo clima. Nas ruas, é comum ver
casais caminhando de mãos geladas entrelaçadas, de narizes frios que se
encontram, ou pés congelados que se esfregam. Qualquer atenção vira paixão,
qualquer paixão vira amor, qualquer olhar vira calor. Eu poderia estar
aproveitando o clima e estar bebendo café em casa, deitado na cama, debaixo dos
lençóis assistindo TV, mas estou aqui, bebendo cerveja sentindo o vento frio na
minha pele, sabe como é, combina mais com meu estado de espírito.

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